terça-feira, 8 de Dezembro de 2009



Pela tardinha – cheguei. Ou melhor, chegámos, a Raquel e eu. De uma Islantilla deserta, mas com um tempo muito agradável, via Albufeira, Inatel, cada vez melhor e com um solzito de não sei se te diga se te conte. Rigorosa dieta, da banda de cá e da banda de lá. Umas cataplanas, umas caldeiradas, um coelho com passas, olhem lá o que nós passámos pelas mesas algarvias.

Sin embargo, miren que régimen nosotros hemos seguido en tierras de Andalucía. Desde tortillas hasta una paella marinera, cordero asado en su salsa y que se yo más. Una orgia pantagruélica. De paseos tranquilos y solitarios, estuvimos en el Paraíso. ¡Sin rollos ni confusiones!

E por cá? Mas, como tristezas não pagam dívidas, muito menos dúvidas, adiante. Lá têm de continuar a aturar-me. Ainda que, e segundo fontes muitíssimo bem informadas, não se tivesse verificado nenhum caudal de lágrimas. E o Manual de Berros do Manuel de Barros não se aplicou. Assim é que se pode avaliar da ingratidão. Bom, vou começar a pôr tudo isto em dia. Há sempre uma esperança de alcançar um desiderato. E esta, hein? A.F.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009




Por favor,
não chorem…

Gente boa*

A partir de amanhã, sexta-feira, 27, ausento-me. Alto lá. Nada de deitar foguetes. Volto a 8 de Dezembro. Que querem? É a vida. Peço, por isso mesmo, que não chorem – no mínimo não funguem muito alto, para não incomodar os outros cidadãos que têm todo o direito à privacidade e ao sossego. E, por obséquio, não ranjam os dentes, que me faz uma impressão enorme e, até, pele de galinha. Obrigado.

Sei, ferpeitamente, a falta que vos faço, modéstia à parte. Mas, o que tem de ser – tem muita força. Retiro-me, acompanhado pela minha caríssima metade, para ir apanhar chuva noutro paradeiro, que vos garanto desconhecido.

À beira-mar plantado, o local situa-se entre dois lados… o de cá e o de lá. E como não há nada como realmente, deixo-vos aqui um desafio que já por diversas vezes fiz. Descubram-me. É facílimo. É mais pró Sul do que pró Norte, cartograficamente falando e não tem absolutamente nada que ver com Lisboa. E mais não digo. É suficientíssimo. Assim, tenho a certeza absoluta de que me apanham. E, claro, mandem os vossos palpites.

No dia 9 cá estarei de novo. Depois de deslocação assaz quilométrica, não digo o meio de trabsporte que vou utilizar, regressarei ao lar-doce-lar. Porém, se não me quiserem aturar não se lamentem. Não voltem aqui à Travessa - e já está. Podem, até, bater palmas à minha ausência, aliás diminuta e passageira. Os aplausos são das melhores formas de despedir um intruso inconveniente e desbocado e desbragado. Tenho dito. Caté.
A.F.

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* Desculpem se me enganei

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009





MÊS A MÊS





Novembro de todos os santos

Maria Lúcia Garcia Marques
Novembro
é um mês para se levar a sério. Pelos campos, é o tempo das névoas mansas das queimadas, da fragilidade das folhas sob um céu espesso, das abóboras gordas no chão maduro. Na cidade, o apetite de um café bem forte ao abrir da manhã, o recato de um cinema pelo fim da tarde ou o calor terno de umas castanhas assadas compradas ao fundo da rua.

O Outono pisa forte: os dias vão encolhendo, as cores vão-se brunindo, tudo parece recolher-se numa cósmica introspecção. O mundo dos humanos vira-se para o inefável, o imperscrutável, o mágico algo soturno – é o halloween, a noite das bruxas… O mundo dos crentes (dos católicos, concretamente) entra em celebrações de congregação dos seus – Dia de Todos os Santos e Dia de Fiéis Defuntos. E não só dos seus, porque, a meu ver não se precisa de qualquer religião específica para lembrar os que vivem, viveram e morreram de coração limpo.

No dizer de Madre Teresa de Calcutá, perguntada se não se emocionava por lhe chamarem “santa” ainda em vida, a santidade não é um prémio, um louvor final. Deverá antes ser o permanente e mais profundo anseio do coração do Homem., Traduzindo para a vida de todos os dias e de todos os homens, é fazer bem feito o que há a fazer, na esperança activa de afeiçoar (quer dizer aqui “tornar digno de afeição”) o mundo. Com abnegação e crença. Em caridade.

E não é preciso ter-se o mesmo deus para se praticar a caridade… Tal qual e cumprindo (em conluio com um deus conhecido ou desconhecido, pressentido ou nem sequer) com o que diz a oração mais universal que conheço: o Pai Nosso.
Que, por minha conta e risco, eu arrumaria invertendo os termos, mais ao modo das gentes e da ordem natural das nossas necessidades e convicções. Assim:
Pai Nosso [que estais nos céus] O pão nosso de cada dia nos dai hoje
Perdoai-nos as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido
Não nos deixeis cair em tentação
E livrai-nos de todo o mal
Padre Nosso santificado seja o vosso nome
Venha a nós o vosso reino
Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.

O povo, na
sua piedade mais lhana, afeiçoou-o ainda mais, abreviando-o em forma de litania, a que chamou “Padre Nosso Pequenino”. Ouçamo-lo:
Padre nosso pequenino
Dá-lhe a chave do Menino
Quem a tem quem a teria
S. Pedro, Sta Maria
Cruz em monte, cruz em fonte
Que o pecado não me encontre
Nem de dia nem de noite
Nem no pino do meio-dia
Já os galos pretos cantam
Já os anjos se alevantam
Já o Senhor subiu à cruz
Que a minha alma tenha luz
Para sempre Ámen Jesus.


Ou na versão de Padornelo (Paredes de Coura):
Padre nosso pequenininho
Nosso Senhor é meu padrinho
Nossa Senhora é minha madrinha
Quando põe a cruz na testa
Para o Diabo não tentar
Nem de noite nem de dia
Nem à hora do meio-dia
Quando o galo sai à luz
Os anjinhos vão co’a cruz
As alminhas vão com eles
Para sempre Ámen Jesus.

Dá-me para
pensar que é uma língua feliz a nossa, em que a palavra oração possui um tão largo espectro de significação. Vai do mais minimamente essencial à comunicação quando a refere como “frase que contém um verbo operativo, gramaticalmente tipificável como segmento construtor de um enunciado”( lembre-se a de todos conhecida e odiada “ divisão de orações” nos “ Lusíadas”), mas também como “prece, pedido dirigido a Deus, santo ou qualquer divindade” (como vimos acima), e ainda”fala eloquente pronunciada em ocasião solene, de cariz moral ou científico de alto saber” (as célebres “orações de sapiência” que de tão longas e, quantas vezes, de tão herméticas, nos mergulham na mais fatal das sonolências e total desatenção).

Mas quando um povo como o nosso tem na boca, sem qualquer intenção confessional, quase por puro automatismo social, frases espontâneas como:
Sabe Deus o que ele anda a fazer a esta hora…
Valha-te Deus, rapariga, que não acertas uma!
Uma bela moça, benza-a Deus!
Por amor de Deus, não diga isso.
Chegou bem, graças a Deus.
Até amanhã, se Deus quiser.
.


quando agradecemos com um Deus lhe pague!, desejamos com um Oxalá! (arabismo wa xallâh que invoca Alá e quer dizer “ queira Deus”) ou nos despedimos com um promissor A-deus! eu apostaria que ao ouvir-nos, deus sorri e por um pouco se demora a ser feliz.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009


Wałesa – uma conversa... a três

Antunes Ferreira
Chovia e fazia um frio dos diabos. Varsóvia à noite, mal iluminada, era uma cidade triste, soturna e pegajosa. Estava no átrio do Novotel num bairro periférico e fumava um gitanes sem filtro. Uns anos depois, deixei-me das fumaças. Tinham-me mandado para ali e, obediente, cumpria. Fora em Lisboa que recebera essa indicação do Henryk Sieviersky, bom amigo e visita lá de casa. Dali iria encontrar-me, sabe-se lá como, com Lech Vałesa.

Henryk tirava uma pós-graduação na Faculdade de Letras e a esposa era professora de piano. Uma menina de dois anitos, loira como a mãe, enfeitiçava-os e enfeitiçara-nos. Não podia regressar à Polónia, pois seria preso. Era membro do Solidariedade Estudantil e conseguira escapar com a família, por mor dos companheiros de actividades subversivas. Eu sabia o que isso era, fora também acusado disso no tempo da Outra Senhora.

Uns dias antes, o meu irmão mais novo, João Jacinto, desde miúdo o Ju, dera um tiro na cabeça com o espingardão com que atirava aos elefantes em Angola. Não deixara papel ou o que quer que fosse a justificar a desgraça. Apenas o crânio esfacelado, a mulher e um filho de dez anos. Mais um que juntei aos meus três. Imagina-se como eu me encontrava e, ainda por cima, o caso ocorrera, estávamos nós no Brasil, de férias, com o outro mano, o Braz. De onde viemos, atabalhoadamente, no primeiro avião depois do telefonema amaldiçoado.

O Mário Mesquita, que naturalmente me acompanhara num tal transe, chamou-me dois ou três dias depois do funeral, ao seu gabinete no DN e perguntou-me se queria ir à Polónia. Para quê? (No fundo, o que ele queria era desviar-me a cabeça do pesadelo). «Ó pá, Portugal vai haver lá um jogo importantíssimo que nos pode quase apurar para o Europeu em Paris. E as Esperanças também vão».

«Mas eu não sou do Desporto…» repliquei um tanto admirado. «Mas sabes umas coisas, bastantes, do chuto na canela. E podias desarrincar algo sobre a situação política que por lá se vive». Aceitei. E meti no cristalino bestunto que iria falar com Lech Vałesa, que acabara de ser premiado com o Nobel da Paz e saíra da prisão uma semana atrás. Hesitei em referir o propósito. Mas, avancei com a ideia.

Mesquita, recordo-me como se fosse hoje, mirou-me de alto a baixo e carregou o cenho, entre o espantado e o duvidoso. «É muito difícil. Mas, de ti há que esperar tudo. Avança». Confortado pela declaração, comecei por pedir à secretaria da Redacção que entrasse em contacto com a Embaixada polaca em Lisboa, a fim de solicitar o visto. O qual me seria dado para os dias da presença das selecções na Polónia.

Já de casa, depois de dada a novidade, telefonei ao Henryk que, nessa noite veio ter comigo e a quem expliquei a minha intenção. Ele conhecia muita gente no seu país. Logo ali fez umas chamadas, face às quais me disse que no dia seguinte, depois de mais diligências, me informaria do resultado delas. Dito e feito. De novo em minha casa, deu-me indicações tão precisas quanto possível.

Abreviando. Após os jogos das selecções, os AAA em Wroclaw e as Esperanças em Opole (só assistiria ao primeiro), regressaria a Varsóvia e ficaria no hotel onde agora estava. No dia 30 de Outubro e no átrio seria contactado por alguém que me daria instruções sobre o que deveria fazer. E pronto. Conversámos a sós, à mesa da minha sala de jantar, com uns digestivos à mistura.

As senhoras e o miudame – noutro aposento; eu não queria que soubessem da embrulhada em que me metera, ainda por cima sem qualquer garantia e arriscando-me a dissabores diversos. Mas, estava feito. Quando me vi no avião a caminho de Frankfurt, de onde seguiríamos para a capital polaca, os jogadores, os treinadores e os dirigentes federativos olhavam para mim, qual ave rara.

Entretanto, eram os camaradas de profissão, os jornalistas desportivos, que mais perguntas começaram a fazer. Por que raios, eu? O David Borges ia pela Emissora, o Rui Tovar, pela RTP, o Joaquim Rita, pela Bola e outros. Fui respondendo que o António Castro tivera um problema de última hora e que só eu conseguira um visto com tanta rapidez, praticamente de um dia para o outro. Dava-me bem com o embaixador e…

Com o Tovar e o Rita iniciei, logo uma verdadeira Amizade que perduraria, felizmente, até hoje. O primeiro era o dono do mais fabuloso arquivo particular sobre o futebol que encontrei. Com um cariz histórico notável. Nada se lhe comparava. E muito bem disposto, sempre pronto para a galhofa e o trocadilho. Tinha sido saneado do DN, nos tempos do Luís de Barros e do Saramago e do Mário Ventura Henriques, pois não era da cor.

O Joaquim Rita era o prestigiado chefe da Redacção da «bíblia» da Travessa da Queimada. Era então que o jornal, trissemanário, se dava ao luxo de recusar publicidade, tão grande era a sua venda. Um homem um tanto introvertido, a cair por vezes no sorumbático – mas excelente, amigo do seu amigo e profundo conhecedor dos meandros do futebol. Analista qualificado, com um estilo muito próprio, seria com um convite dele que eu viria a ser cronista da Bola. Durante vários anos. O David Borges, também um estupendo profissional, já o conhecia de Angola.

Compreendi logo que nenhum engolia a patranha. Mas, com a ajuda de uns uísques, gins e vodkas, e umas anedotas à mistura, sossegaram um pouco. A trágica morte do meu irmão também justificava a nomeação da Direcção do Diário de Notícias. Para me ajudar a limpar as teias de aranha que se tinham instalado na minha cachimónia.


Dos jogadores quem me inquiriu também foram o Jaime Pacheco e o Beto, guarda-redes do Sporting e da Selecção de Esperanças. O Cabrita do famoso «vamos a eles que nem Tarzões!!!» torceu o nariz. O malogrado António Morais (que acabaria meses depois por morrer ao volante, pensa-se que por ter adormecido) que eu conhecia relativamente bem, veio dar-me os pêsames e, franzindo o nariz, «O que vem o Senhor aqui fazer? Não é destas guerras…» Lá lhe contei a justificação esfarrapada e ele, excelente pessoa, fingiu que a aceitava.

Chegados, foram as peripécias diversas e habituais num aeroporto de um país comunista. Adiante. Seguimos para Wroclaw num avião de hélices. Amplo, espaçoso, na casa de banho, atenção não era um sanitário, era mesmo casa de banho… podia dar-se uma farra com dança, dançarinas e tudo.
(continua em dia próximo)

NECom este textículo continuo no TROTAMUNDO a tentar dar uns quantos apontamentos do que foi a vida de um jornalista que andou por locais diversos a conversar com pessoas também diversas e a que se convencionou chamar «importantes». Para mim, foram gentes de carne e osso e pele e etc. - iguaizinhas a qualquer um de nós; apenas com nomes mais sonantes. Se acharem que é auto-propaganda, juro que não é. Se se cansarem, digam que eu paro logo. Continuo a ser muito obediente.
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Legendas
Henryk Sieviersky
Lech Walesa em Gdansk
Selecção nacional AAA - 1983
Rui Tovar
Joaquim Rita
Fernando Cabrita

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009




CONCURSOS
PONTO FINAL


Apenas
duas vencedoras

Pelos visto, esta coisa dos concursos já deu o que tinha a dar. Pelo menos, estes que ia inventando por aqui. Os concorrentes têm sido cada vez mais, mas mesmo muito mais. São tantos que parecem, até, e salvo seja, os compadres da Face Oculta… Uma miséria, o caso da sucata e o número de participantes, tenho de o dizer. Donde – acabou-se, não a papa doce, mas esta cegada. Com a.

Assim, e como continuo a gostar de dar coisas, nomeadamente os prémios-mistério, todos os meses, entre os dias 15 e 16, decorrerá um sorteio entre aqueles que nos acompanham com regularidade, nomeadamente os que se inscrevam (per)seguidores da Travessa.

Entretanto, os textos eram realmente do grande Fernando Namora, do I volume dos «Retalhos da vida de um Médico», obra que, para mim, devia ser de leitura obrigatória. Honny soit.

Premiadas:
Maria dos Alcatruzes e
Sofia Regalo (que já não é «anónima»…)

Parabéns às duas. E muito obrigado aos concorrentes: a estes e a todos os outros que o fizeram anteriormente. Como já tenho a morada da nossa Maria – melhor fora… - só preciso de receber a da Sofia.




Assim sendo, até ao próximo sorteio que já será pertinho do Natal. A propósito: podem todos os que por aqui vêm ir preparando as prendas para este vosso humilde e reverencial servo. Gostaram?... Deo gratias. A.F.











ALKATEIA INDIVIDUAL

Deus, Abel, Caim, Jó
e coisas afins e aparentadas

Cláudio Gil, o WolfHeart
Achei extremamente curiosa toda esta questão que se levantou em volta do último livro de José Saramago. Quem me conhece minimamente não fica de todo surpreendido com esta afirmação e muito menos os poucos que já leram algumas coisas que escrevi e que não estão publicadas em lado nenhum (e que nem sei se virão a ser), nos quais se inclui o nosso estimadíssimo “chefe”.

Sou cristão praticante, católico por tradição mas não por convicção. Aliás, para assistir a uma missa não quero saber se o padre é católico, ortodoxo, evangélico, protestante… No fundo vendem todos o mesmo produto com uma embalagem ligeiramente diferente. Basicamente, e mal comparado, é como quando estamos na dúvida entre comprar um VW ou um Skoda da mesma gama.





O design é diferente, mas aquilo que interessa, os componentes, são todos iguais. O mesmo chassis, o mesmo motor, a mesma suspensão, os mesmo travões… Claro que, ainda assim, há quem ache e esteja convencido que um VW é melhor que um Skoda, e qualquer vendedor da VW se esforça por lhe apontar tudo aquilo em que um VW é superior. Por outro lado, qualquer vendedor da Skoda faz os possíveis para lhe mostrar que o Skoda é igual.

Falo aqui de marcas comparando com este aspecto das divergências religiosas porque, caso não se saiba, o efeito no cérebro da visualização de uma marca desejado ou de um símbolo religioso em que se acredita é praticamente igual. Conscientemente sabemos a diferença, mas para o nosso subconsciente esta não existe e é se calhar por isso que a religião vem sendo substituída por um consumismo desenfreado – Faltando uma, substituímos por outra de igual significado. Mas estou-me a desviar do intuito original.

Não sou fã da escrita de Saramago, o que não quer dizer que não o reconheça como grande escritor. Mas atrevo-me a dizer que penso compreendê-lo ao pegar na história de Caim, que é no mínimo estranha. Sobretudo na critica que faz a Deus.



Ora Deus, grande criador, omnipotente, omnipresente, omnisciente, eterno é também bastante contraditório. Afinal, apesar de ser omnisciente após a criação do homem, quando vê a balbúrdia que se instala entre os seus filhos e as filhas dos homens “(…) arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração”. Mas se é omnisciente deveria saber à partida o que aconteceria.

Depois de tudo o que aconteceu “(…) saiu Caim de diante da face do Senhor, e habitou na terra de Node, do lado oriental do Éden.” Isto, claro, apesar de Deus ser omnipresente. Ler o Génesis é refrescante porque foi nestes contrastes e contradições que comecei a pensar se o Deus ali retratado seria, de facto, Deus. Muitos episódios se seguem ao longo do Antigo Testamento que dão indícios de um ser não muito misericordioso, dependente do tempo, caprichoso e contraditório.



José Saramago tem razão quando diz que o livro de Jó é ilustrativo. Afinal, Deus, que sabe quando uma andorinha cai dos céus, sujeita Jó, através de Lúcifer, o maior dos arcanjos e assim chamado por ser o anjo da luz, a uma série de provações imensas para provar algo que ele já devia saber à partida o que tornaria desnecessário o que causou. É que na sua imensa justiça, para fazer o que fez a Jó, montanhas de gente foi afectada pelo caminho apenas e unicamente porque fazia parte da vida de Jó.

Vem a Igreja Católica, em sua defesa, dizer que tudo isto é apenas simbólico e que serve para demonstrar algo. Mas o facto é que essa mesma Igreja, que defende coisas como a infalibilidade papal e que viu com muito custo um representante seu dizer que um seu antecessor se enganara no caso de Galileu (o que faz desmoronar essa mesma infalibilidade) continuaria a vender a bíblia como verdade absoluta e a defender o criacionismo não fora o facto de o mundo ter evoluído mais depressa que a instituição, sendo que há ainda muitas correntes cristãs que o fazem.


Não acredito que Saramago procurasse a polémica. Se calhar limitou-se a reflectir sobre uma história que não faz muito sentido e tentou encontrá-lo, tal como eu o fiz ao descobrir a Lilith que tão diligentemente tem sido apagada dos textos e traduções da bíblia, até porque a sua mera referência no livro de Isaías causa um problema grave – afinal a própria bíblia refere-se por nome a uma deusa pagã, e como os judeus bem sabiam, isso tinha implicações.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009


CONVERSAS DIVERSAS

Os meus cantos

Maria (Alves Correia) dos Alcatruzes
Há muita espécie de cantos. Desde os dez de “Os Lusíadas”, os cantos da mesa, o canto lírico, o canto dos pássaros e passarões, o canto da nossa tristeza, sei lá quantos! Os meus cantos são outros. São lugares, são sítios que escolho como meus e, que não cedo a ninguém.

Em pequena, na casa onde nasci, tinha dois cantos meus. Um, entre o guarda-fatos da minha mãe e a parede, onde me escondia quando alguma coisa me aborrecia. O outro, sob a mesa da casa de jantar, onde com a ajuda do meu irmão, montava a minha casa de brincar. Na Quinta do Carregal, era na liberdade de um espaço livre e seguro com a Ria ao fundo, que escolhia os meus refúgios. Ora num galinheiro desactivado, ora nas pequenas casas espalhadas e abandonadas, ora sob as mimosas.

À noite e nos dias de chuva e frio, o canto da grande lareira da sala. Aí, meia deitada em almofadas, olhava o lume, lia um livro, sonhava. Mais tarde, na casa do Porto, era no quarto de águas-furtadas do sótão, que me refugiava. Fui Anne Franck, fui “A Princesinha”, fui Marie Curie, nesse canto. Escutei Brel, Aznavour, li “Os Maias” às escondidas, fumei cigarros, imaginei revoluções, sonhei amores de caixão à cova.

Desta casa, em que moro há 41 anos, fiz o meu canto. Mas dento dela, há subcantos. Este onde estou agora, com o computador à frente e, onde passo muito tempo, a minha sala onde estão parte dos livros (os outros estão pela casa toda), os velhos móveis dos meus avós, quadros bordados à mão, velhas peças, lembranças de amigos, fotos de mortos e vivos que amo, um monte de coisas que só comigo falam. Esse é o canto da memória, o canto da nostalgia e da saudade. Cantos, refúgios, quem não os tem? A velha casa por onde andamos às escuras sem tropeçar nos móveis, o sofá a pedir reforma, mas que já tem a forma do nosso corpo, o tacho antigo em que fazemos arroz doce.

E o outro canto, o mais doce de todos, os braços que um dia me apertaram com paixão e hoje me amparam as dores físicas e a tristeza com uma ternura imensa. É esse o canto em que me sinto melhor.

NE 1) Eis aqui, depois de uma ausência notada - e em boa parte por culpa minha que me atrasei na postagem e tive até de lhe pedir uma segunda via, com as minhas desculpas - a nossa Maria Alcatruzeira. E trazendo à colação o seu adorado Santo João. Que canto – e que canto. Docinho como o algodão de feira. Ó Maria, vê se não te demoras tanto. Já está.


2) Veja a Autora, a citação que lhes faço na resposta ao cumentário, com o , do escrito da Ana..ónima Salinas, sem s, sobre muá. E aproveito o ensejo para avisar a malta, kéoke faz falta, que tenho no prelo e em fascículos a estória do meu encontro com o Senhor Lech Vałesa (Vauensa, porque o ł em polaco é ua…, okeu sei, tadinho) em Gdansk. A seu tempo e aos bocadinhos – que a estória é longa. Assim ma aturem; daí este aviso prévio – para se precaverem. Atempadamente. Esperem pela pancada...