Wałesa – uma conversa... a trêsAntunes FerreiraChovia e fazia um frio dos diabos. Varsóvia à noite, mal iluminada, era uma cidade triste, soturna e pegajosa. Estava no átrio do Novotel num bairro periférico e fumava um gitanes sem filtro. Uns anos depois, deixei-me das fumaças. Tinham-me mandado para ali e, obediente, cumpria. Fora em Lisboa que recebera essa indicação do Henryk Sieviersky, bom amigo e visita lá de casa. Dali iria encontrar-me, sabe-se lá como, com Lech Vałesa.
Henryk tirava uma pós-graduação na Faculdade de Letras e

a esposa era professora de piano. Uma menina de dois anitos, loira como a mãe, enfeitiçava-os e enfeitiçara-nos. Não podia regressar à Polónia, pois seria preso. Era membro do Solidariedade Estudantil e conseguira escapar com a família, por mor dos companheiros de actividades subversivas. Eu sabia o que isso era, fora também acusado disso no tempo da Outra Senhora.
Uns dias antes, o meu irmão mais novo, João Jacinto, desde miúdo o Ju, dera um tiro na cabeça com o espingardão com que atirava aos elefantes em Angola. Não deixara papel ou o que quer que fosse a justificar a desgraça. Apenas o crânio esfacelado, a mulher e um filho de dez anos. Mais um que juntei aos meus três. Imagina-se como eu me encontrava e, ainda por cima, o caso ocorrera, estávamos nós no Brasil, de férias, com o outro mano, o Braz. De onde viemos, atabalhoadamente, no primeiro avião depois do telefonema amaldiçoado.
O Mário Mesquita, que naturalmente me acompanhara num tal transe, chamou-me dois ou três dias depois do funeral, ao seu gabinete no DN e perguntou-me se queria ir à Polónia. Para quê? (No fundo, o que ele queria era desviar-me a cabeça do pesadelo). «Ó pá, Portugal vai haver lá um jogo importantíssimo que nos pode quase apurar para o Europeu em Paris. E as Esperanças também vão».
«Mas eu não sou do Desporto…» repliquei um tanto admirado. «Mas sabes umas coisas, bastantes, do chuto na canela. E podias desarrincar algo sobre a situação política que por lá se vive». Aceitei. E meti no cristalino bestunto que iria falar com

Lech Vałesa, que acabara de ser premiado com o Nobel da Paz e saíra da prisão uma semana atrás. Hesitei em referir o propósito. Mas, avancei com a ideia.
Mesquita, recordo-me como se fosse hoje, mirou-me de alto a baixo e carregou o cenho, entre o espantado e o duvidoso. «É muito difícil. Mas, de ti há que esperar tudo. Avança». Confortado pela declaração, comecei por pedir à secretaria da Redacção que entrasse em contacto com a Embaixada polaca em Lisboa, a fim de solicitar o visto. O qual me seria dado para os dias da presença das selecções na Polónia.
Já de casa, depois de dada a novidade, telefonei ao Henryk que, nessa noite veio ter comigo e a quem expliquei a minha intenção. Ele conhecia muita gente no seu país. Logo ali fez umas chamadas, face às quais me disse que no dia seguinte, depois de mais diligências, me informaria do resultado delas. Dito e feito. De novo em minha casa, deu-me indicações tão precisas quanto possível.
Abreviando. Após os jogos das selecções

, os AAA em Wroclaw e as Esperanças em Opole (só assistiria ao primeiro), regressaria a Varsóvia e ficaria no hotel onde agora estava. No dia 30 de Outubro e no átrio seria contactado por alguém que me daria instruções sobre o que deveria fazer. E pronto. Conversámos a sós, à mesa da minha sala de jantar, com uns digestivos à mistura.
As senhoras e o miudame – noutro aposento; eu não queria que soubessem da embrulhada em que me metera, ainda por cima sem qualquer garantia e arriscando-me a dissabores diversos. Mas, estava feito. Quando me vi no avião a caminho de Frankfurt, de onde seguiríamos para a capital polaca, os jogadores, os treinadores e os dirigentes federativos olhavam para mim, qual ave rara.
Entretanto, eram os camaradas de profissão, os jornalistas desportivos, que mais perguntas começaram a fazer. Por que raios, eu? O David Borges ia pela Emissora, o Rui Tovar, pela RTP, o Joaquim Rita, pela Bola e outros. Fui respondendo que o António Castro tivera um problema de última hora e que só eu conseguira um visto com tanta rapidez, praticamente de um dia para o outro. Dava-me bem com o embaixador e…
Com o Tovar e o Rita iniciei, logo uma verdadeira Amizade que perduraria, felizmente, até hoje.

O primeiro era o dono do mais fabuloso arquivo particular sobre o futebol que encontrei. Com um cariz histórico notável. Nada se lhe comparava. E muito bem disposto, sempre pronto para a galhofa e o trocadilho. Tinha sido saneado do DN, nos tempos do Luís de Barros e do Saramago e do Mário Ventura Henriques, pois não era da cor.
O Joaquim Rita era o prestigiado chefe da Redacção da «bíblia» da Travessa da Queimada. Era então que o jornal, trissemanário, se dava ao luxo de recusar publicidade, tão grande era a sua venda. Um homem um tanto introvertido, a cair por vezes no sorumbático – mas excelente, amigo do seu amigo e profundo conhecedor dos meandros do futebol.

Analista qualificado, com um estilo muito próprio, seria com um convite dele que eu viria a ser cronista da Bola. Durante vários anos. O David Borges, também um estupendo profissional, já o conhecia de Angola.
Compreendi logo que nenhum engolia a patranha. Mas, com a ajuda de uns uísques, gins e vodkas, e umas anedotas à mistura, sossegaram um pouco. A trágica morte do meu irmão também justificava a nomeação da Direcção do Diário de Notícias. Para me ajudar a limpar as teias de aranha que se tinham instalado na minha cachimónia.
Dos jogadores quem me inquiriu também foram o Jaime Pacheco e o Beto, guarda-redes do Sporting e da Selecção de Esperanças. O Cabrita do famoso «vamos a eles que nem Tarzões!!!» torceu o nariz. O malogrado António Morais (que acabaria meses depois por morrer ao volante, pensa-se que por ter adormecido) que eu conhecia relativamente bem, veio dar-me os pêsames e, franzindo o nariz, «O que vem o Senhor aqui fazer? Não é destas guerras…» Lá lhe contei a justificação esfarrapada e ele, excelente pessoa, fingiu que a aceitava.
Chegados, foram as peripécias diversas e habituais num aeroporto de um país comunista. Adiante. Seguimos para Wroclaw num avião de hélices. Amplo, espaçoso, na casa de banho, atenção não era um sanitário, era mesmo casa de banho… podia dar-se uma farra com dança, dançarinas e tudo.
(continua em dia próximo)
NE –
Com este textículo continuo no TROTAMUNDO a tentar dar uns quantos apontamentos do que foi a vida de um jornalista que andou por locais diversos a conversar com pessoas também diversas e a que se convencionou chamar «importantes». Para mim, foram gentes de carne e osso e pele e etc. - iguaizinhas a qualquer um de nós; apenas com nomes mais sonantes. Se acharem que é auto-propaganda, juro que não é. Se se cansarem, digam que eu paro logo. Continuo a ser muito obediente.
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Legendas Henryk SievierskyLech Walesa em GdanskSelecção nacional AAA - 1983Rui TovarJoaquim RitaFernando Cabrita