ALCATEIA INDIVIDUAL
Conversa de patamarCláudio Gil, o WolfHeart
Aqui há uns bons anos atrás, no tempo em que eu ainda era relativamente atraente, em que ainda se podia fumar em todo o lado, em que o Papa ainda não tinha morrido, em que o Bush ainda não era imperador da América, em que o Clinton andava com a Mónica na sala oval (o que quer dizer que não se podiam esconder num cantinho), em que as torres ainda não tinham caído, em que ainda só tinha havido uma guerra no Iraque, em que toda a gente, menos os agarrados, se estava marimbando para o Paquistão, em que a Europa ainda só tinha doze e nós não éramos os mais pobres, em que tínhamos um primeiro-ministro que não sabia fazer contas,

portanto, como podem constatar pelo tamanho desta frase incrivelmente longa, bem ao meu gosto, só para chatear e confundir, e fazer, basicamente, com que o leitor se perca em labirintos de pontuação e perca de tal forma o raciocínio que, quando chegarmos ao propósito da frase já nem se vai lembrar do começo, há muito, muito tempo, mas, ao invés de ser numa galáxia distante, foi aqui mesmo, neste rectângulo que a Espanha tenta agregar vai para 800 e bués de anos, estava eu a fumar um cigarrito num patamar de escada junto com um tipo que teria, muito provavelmente, o dobro da minha idade, o que não fazia dele, necessariamente velho, mas fazia de mim bem mais novo.
O sítio onde me encontrava era extraordinariamente bem frequentado por moçoilos e moçoilas cujo objectivo na vida é chatearem os “Sôtôres” e tentar impingir-lhes os produtos que eles vendem e que na prática são iguais os produtos que os outros vendem. Como os “Sôtôres” são gajos e gajas iguais a toda a gente mas têm, por norma, a mania que não, estes moçoilos e moçoilas têm que ir todos bem arranjaditos e até têm que fingir que são pessoal fixe para ver se os conseguem impressionar.
Já eu que, graças a Deus, não sou, nunca fui e não hei-de ser “Sôtôr”, era liminarmente ignorado por esta franja da população, o que para mim era uma bênção. Mas uma vez que foi Deus que criou a injustiça, mais tarde a situação mudou e eu, com a estranha mania que tenho de cumprir as ordens que me são dadas e não dar “abébias” a ninguém, coleccionei, por um lado alguns ódios de estimação e por outro lado a admiração de algumas pessoas, sendo que a minha fama extravasou em muito os limites do meu local de trabalho e me vi rodeado de muralhas de cinismo impressionantes. Mas eu finjo que não percebo, eles fingem que eu não finjo e está tudo bem. Mas onde é que eu ia? Ah, no patamar da escada a fumar o dito cigarrito.
Estávamos então os dois ali quando de repente uma destas moçoilas passou, toda bem produzida e com as habituais camadas de “robialac” na tromba e eu, jovem com sangue na guelra, olhei para a moça, tirei-lhe as medidas todas e enquanto ela ia subindo as escadas eu ia pensando naquela famosa frase “Odeio que te vás embora, mas adoro ver-te a ir…” à medida que o meu cérebro ia registando as proporções e observando as formas hidro-dinâmicas da criatura.
Foi então que reparei que o meu companheiro de patamar me observava (ela já tinha saído do seu campo de visão) com aquele sorriso meio pateta de uma cumplicidade que claramente não existia entra nós, mas que ele achava que sim. Olhei para ele ao fim de algum tempo, ele que não parava de olhar para mim e, sentindo-me já incomodado com a insistência dele atrevi-me a perguntar: «Sim…?». Só para chatear ele tinha que se sair com a frase “chapa quatro”. «Diga-me lá que não mordia aquilo tudo…»
Compreendi de imediato que ele não falava numa tentativa de expressar o que eu faria, mas sim o que ele tinha vontade de fazer. Só que houve um problema na frase dele. Ele assumiu que aquilo que eu estaria a pensar era o mesmo que ele tinha pensado, quando na realidade não era, o que me levou a querer dar-lhe alguma espécie de esclarecimento. Dirigi-me então a ele: «Diga-me, já ouviu falar na Vénus de Milo?». «Sim já». «E na estatua de David?»
«Bem nessa, por acaso, nem por isso. Quer dizer, já ouvi falar mas não tou a ver…» «Humm! Então dou-lhe outro exemplo; a Mona Lisa?» «Sim claro…». «Sabe o que é que estas obras têm em comum?». A pergunta era meramente de retórica e não esperei que ele respondesse. «Na verdade são todas grandes obras-primas. Posso passar horas a olhar para qualquer uma delas e não deixo de me maravilhar com o génio de quem as fez».
Ele assentiu, sem saber muito bem o rumo que a conversa estaria a tomar ou até o que é que a Mona Lisa teria a ver com as formas hidro-dinâmicas da moça. Eu continuei.

«A verdade é que, por exemplo adorava ter a Mona Lisa, o quadro original claro, em casa e passar horas a ver a obra-prima de Leonardo. Mas posso-lhe garantir uma coisa, …». Ele olhou para mim com um olhar que era um misto de curiosidade e de desconfiança no que viria a seguir, «…a mim, jamais em tempo algum passaria pela cabeça, nem que apenas fosse por breves momentos, levar o quadro para a cama e fazer sexo com ele».
O gajo ficou atónito a olhar para mim, não percebendo o que lhe tinha dito, talvez pensando “Fosga-se, nem a ti nem a ninguém, és estúpido ou quê?”. Acabou por concretizar as suas dúvidas quando me perguntou: «Mas o que é que quer dizer com isso?». «O que quero dizer é que a maneira como olho para uma mulher bonita e produzida quando ela passa por mim tem muito mais a ver com uma apreciação meramente estética do que com desejo carnal. Tem muito mais a ver com a admiração da beleza própria do género feminino do que com quaisquer segundas intenções. Claro que não vou dizer que não há uma ou outra que até apetecia, mas essas são quase tão raras como o primeiro prémio no Totoloto».
Ele deixou-se ficar um bocado a olhar para mim, tentando ver toda a significância das minhas palavras, e acabou por dizer ao fim de um bocado: «Tou a ver». – Fez uma pausa, pensativamente, e depois continuou «mas esta tipa que passou era muita bem mordida…». Olhei para ele durante uns segundos, enquanto ele olhava para mim como que à espera que eu confirmasse aquilo que ele me tinha dito. Depois apaguei o cigarro, virei-lhe as costas e fui beber um café…